quarta-feira, 2 de maio de 2012

Do ofício de escrever




Eu estou escrevendo um livro.




Se é o primeiro que escrevo ou o vigésimo, isso vai do ponto de vista. Se qualquer coisa que tiver começo, meio e fim e dezenas de páginas no meio contar como livro, então já escrevi inúmeros. Se pra ser livro precisar de uma história desenvolvida, personagens, enredo, capítulos etc, já comecei diversos e terminei três. Agora se pra ser chamado meeeesmo de livro a história precisar de personagens bem desenvolvidos que aparecem como protagonistas, par romântico, complicador, antagonista e coadjuvantes; se tiver que ter uma história principal e outras secundárias sendo levadas ao mesmo tempo, costuradas umas nas outras na medida exata; se tiver que ter enredo, aclimatação, desenvolvimento, reviravoltas, clímax e desfecho; se tiver que contar uma história interessante o suficiente para prender a atenção, corriqueira o suficiente para que o leitor se identifique e ao mesmo tempo original o suficiente para que desperte algum interesse; e se essa história tiver que ser contada com muitas tiradas de humor, algumas colocações filosóficas e diversas sacadas interessantes; se tiver que ser escrita com o número exato de palavras, o bastante para não apressar o enredo mas o suficiente para não cansar o leitor... Enfim, se precisar de tudo isso para ser chamado de livro, então eu admito: esse é o primeiro que estou escrevendo.



Escrever um livro nos moldes do que coloquei aí em cima pode ser comparado a produzir um filme. Minha grande vantagem como escritora: orçamento ilimitado. Posso fazer aparecer helicópteros, iates, aviões, vestidos caríssimos, diamantes enormes, mulheres e homens lindíssimos, lugares espetaculares e quantos personagens e figurantes eu quiser, que é tudo de graça. Mas a facilidade termina por aí. O resto do trabalho envolvido na construção de uma história - e que num filme é feito por uma equipe imensa, vide as letrinhas brancas passando ao final - como escritora fica todo pra mim.



Eu tenho que criar o enredo, esboçar o roteiro, inventar os diálogos, criar as piadas e encarnar todas as personalidades da história. Eu tenho que decidir onde começa e termina uma cena, se é melhor cortar ali ou se deixo estender mais um pouco, se fulano, sendo um senhor de meia idade que tivera uma infância pobre, usaria mesmo aquele termo para dizer alguma coisa ou reagiria daquela forma numa certa situação, para o texto ficar verossímel. Tenho que pensar no figurino, nos cenários, no enquadramento, nos efeitos especiais e quem diria, até na trilha sonora. E enquanto faço isso, tenho que me desdobrar um pouquinho mais e estar ao mesmo tempo nos bastidores com a mão na massa criando, dirigindo e ditando o ritmo, enquanto permaneço também sentada confortavelmente em frente à história, pipoquinha na mão, assistindo a mágica se desenrolar na minha frente - até para julgar se posso chamar aquilo ali de "mágica" ou não. E isso sem esquecer de encarnar ainda a revisora chata, e sair passando a caneta vermelha em tudo o que estiver sobrando, faltando ou com grafia duvidosa. É trabalho que não acaba mais.



Uma vez escrito, o bom texto parece ter a medida exata. Não sobram palavras nem faltam ideias. Tudo se ajusta perfeitamente, como um quebra-cabeça depois de montado. Uma vez pronto, a impressão é que o texto sempre esteve ali. O que o leitor esquece é que ele não estava. E não estaria, não fosse pela persistência de uma cabeça pensante, que topou abraçar o próprio isolamento a fim de povoar um mundo totalmente novo com criaturas interessantes e cheias de vida, que passarão a existir e a fazer companhia a quem quiser se enveredar pela história.



[Aliás, eu sei que o Gabriel Garcia Marquez estava falando de outra coisa no seu Cem anos de solidão. Mas com esse título, poderia ter desenvolvido, fácil, a história de qualquer escritor.]



Ler e escrever são ambas atividades solitárias mas com uma grande diferença: quem está nos bastidores da história, em vez de se entreter com a presença de personagens que falam, pensam e sentem como se vivos fossem, conta somente com sua própria companhia, e com o eterno espaço em branco que teima em aparecer ao final de cada palavra. Mas acho que esse é ao mesmo tempo o grande desafio e a melhor recompensa: a possiblidade de pegar um espaço vazio do mundo e preencher com um pedaço da gente mesmo. E no processo, quem sabe até entreter, divertir ou encantar uma criatura ou outra.

Um comentário:

  1. Parabéns! Poucas são as pessoas que conseguem escrever tão bem! ;-)

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