quinta-feira, 23 de maio de 2013

Você quer, você pode... tentar.

 
 Entitlement. Essa é uma palavra do inglês para a qual não consegui pensar numa tradução exata para o português (bom sinal?), mas que significa algo como "se achar no direito". Esse é um comportamento que, infelizmente, anda bem comum em pessoas da minha geração e nas que vieram na sequência, e parece que vai se agravando cada vez mais. Quanto mais novinho, mais se achando no direito. Direito de quê? De ter o mundo a seus pés, ora bolas. Por que alguém iria querer qualquer coisa menos?
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Não é culpa das crianças, mas do modo como elas vem sendo criadas. Tudo porque nos anos 70 algumas pesquisas concluíram que as crianças que tinham a autoestima elevada eram as que iam melhor na escola. Só que o que se descobriu depois (e que parece que ninguém ficou sabendo ou deu muita bola) é que a autoestima elevada dos alunos era consequência de irem bem na escola, e não a causa - o que faz muito mais sentido.
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 Infelizmente parece que muita gente ouviu a notícia pela metade ou resolveu ignorar essa última parte. E aí passaram a criar os filhos repetindo mil vezes que eles são melhores, especiais, inigualáveis, que podem fazer o que quiser, que podem ter o que quiser, que são princesas e príncipes e que a vida para eles será um conto de fadas. O pior é que fazendo isso, acabam não alcançando o que tinham em mente - e ainda estragam a criança.
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 Não conseguem aumentar a autoestima do filho porque autoestima é uma coisa que o nome já está dizendo: é auto, é pessoal, tem que vir de dentro. Autoestima é coisa que a gente mesmo é que cultiva - é impossível cultivarem por você e te entregarem pronta. A pessoa tem que ir dando passos pequenos, alcançando uma meta aqui e outra ali, percebendo seus sucessos, e aí descobrindo seu valor, e não ficar ouvindo que o valor dela é altíssimo, sendo que ela mesma não vê comprovação alguma disso. Pior: o que se termina conseguindo com a enxurrada de elogios vazios são crianças narcisistas e o pior, inseguras. Elas sentem que o mundo deveria achá-las "as melhores", afinal, mamãe me disse que eu era, mas ao mesmo tempo não tem no que sustentar essa crença - então ficam inseguras. Uma péssima combinação, infelizmente muito comum nessa geração por alguns chama de millennials (os nascidos depois de 1980).
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 O pior é que essa é uma geração angustiada também. Por ouvir tanto que eles podem tudo, eles acham que devem tudo e que tem que tudo - e o que seria esse "tudo" mesmo? É um pessoal que quer muito, quer agora, quer pra ontem, não quer se esforçar pra ter - mas só não sabem ainda o quê.
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 Essa ideia (que também é bastante americana) de "você quer, você pode" deveria ser revisada para "você quer, você tem o direito de tentar." Pode ser que você consiga ou pode ser que não. Tem gente que vai lá e consegue, e tem gente que não, e não tem nada de errado com nenhuma das duas coisas. Ninguém tem todas as cartas na mão, e muitas pessoas de sucesso tiveram mesmo mais sorte, ou nasceram em famílias mais ricas, ou tiveram acesso a coisas diferentes das que você teve. É a vida.
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 O que os pais deveriam dizer é: filho, descubra seus pontos fortes e use-os em seu favor. Ganhar é ótimo, perder faz parte. Na vida às vezes estamos por cima, às vezes por baixo. O que não podemos fazer é deixar de caminhar, porque aí  perderia-se todo o aprendizado, e pior ainda, toda a diversão.

2 comentários:

  1. Excelente. Sua análise é foi muito lúcida. Compartilhei seu texto, com os devidos créditos autorais, claro.

    Um abraço.

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  2. Obrigada! Estou honrada!! = ) Abração!

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