domingo, 24 de novembro de 2013

Perguntam o que mas não como.

De vez em quando alguém quer saber um pouco mais da minha vida e aí começa a perguntar de pais, irmãos etc. Quase invariavelmente, quando eu conto que minha irmã é casada, tem duas filhas saudáveis e inteligentes, mora numa linda casa e não trabalha fora, me perguntam: "nossa, mas o que o marido dela faz?" A pergunta é válida e a resposta (é empresário) explica parte do quadro. Mas fico incomodada porque parece que o fato dele ser empresário serve para explicar toda a situação - e não é bem assim.
 
 É a velha história da nossa sociedade só enxergar e valorizar uma parte da equação. Entendem que sem a parte que trabalha fora não haveria o dinheiro para manter aquela vida. Mas esquecem que sem a parte que trabalha dentro, não seriam criadas as condições para se ter essa tal vida.
 
É fato que as pessoas trabalham fora para ganhar dinheiro. Mas com qual objetivo? Acumular mais dinheiro na conta? Comprar coisas no shopping? Ou seriam os dois anteriores mas acima de tudo, para se ter uma vida boa, confortável e gostosa? Exato. E será que o fato de ganharem dinheiro automaticamente já produz - plim! - essa vida confortável, com uma casa gostosa com cheiro de comida saindo do forno, crianças bem educadas brincando felizes, casa arrumada com lençois trocados, toalhas idem, plantinhas agoadas e cachorro alimentado? Pois é. Não. Nem de longe.
 
Hannah Arendt (filósofa política alemã, muito influente no sec XX) define o que seria work (o trabalho fora, que traz o dinheiro) e o labor (o trabalho dentro, que cria as condições). Ao definir, ela não só os diferencia como evidencia a importância vital de ambos, que se complementam.
 
 Tão vital é o trabalho dos que trabalham dentro que quando ambos trabalham fora, o que acontece? Contratam-se pessoas para fazer o trabalho de dentro. E assim temos as empregadas, babás, jardineiros, piscineiros, decoradores, cozinheiras, passadeiras, faxineiras, arrumadeiras, governantas, motoristas, dog walkers etc.
 
 Uma pergunta para o eventual leitor que ainda não estiver entendendo: você acha que se ninguém comprasse pipoca ainda existiria o pipoqueiro? Pois é. Todas essas profissões que citei acima existem porque há de se fazer todas essas coisas numa casa. Aliás, todas essas coisas e muitas outras mais.
 
Afinal, casa não é sinônimo de lar. Uma pessoa pode contratar todos os profissioais que quiser para manter a casa dela funcionando, mas ainda está para aparecer a profissão de acalmador de filhos que tiveram pesadelos ou de acendedor de velas e colocador de cds para tocar para criar um climinha bom. Também nunca ouvi falar da profissão de fazedor de álbuns de fotografias da família nem da de colocador de fotografias importantes em porta-retratos, sem falar na de acolhedor de maridos que chegam cansados, lembradores de aniversários da cunhada e da sogra, escrevedor de cartões de Natal, comprador de presentes de aniversário, colocador de coisas no correio, levador de roupas na costureira etc etc etc. E mesmo assim, de alguma forma - mágica? - todas essas coisas são feitas.
 
[E aí algum marido desavisado ainda vai querer dizer: ah, mas quando eu era universitário eu estudava, fazia estágio e ainda cuidava da casa. Bom, meu querido, eu te pergunto: será que a sua "casa" era algo perto da que você mora hoje?]
 
 Voltando à história da minha irmã, sempre tem alguém pra dizer: ah, mas ela tem empregada. Sim. Que grande pecado. Vamos orar pela alma dela. Ah, por favor né. Por acaso alguém esperaria que o presidente de uma empresa fizesse todo o trabalho sozinho? O CEO da empresa tem mil empregados, logo ele não deve ter nada mesmo pra fazer? Incrível como a lógica muda. Imagina que alguém disesse: meu marido comanda 20 empregados na empresa. O que você pensaria? Nossa, ele deve ter muito trabalho. Mas aí eu digo: minha irmã tem uma empregada. E então pensam: nossa, então ela não deve fazer nada. É mesmo. Porque aliás, a empregada dela é Mary Poppins, que além de ser perfeita, antecipa todas as necessidades de todos da casa e tira da maleta mágica as compras de mercado, as roupas de balé das meninas e mais mil coisas.
 
 Em poucas palavras: uma vida confortável dá trabalho, todo tipo de trabalho, tanto o feito fora quanto o feito dentro. O ideal é que esse trabalho esteja dividido em partes iguais ou pelo menos justas para marido e mulher. Como será essa divisão, aí vai de cada casal. No caso da minha irmã, eles estão num ótimo equilíbrio, porque cada um reconhece e aprecia profundamente o que o outro faz, e por isso a família deles segue feliz e equilibrada. O que só me deixa mais incomodada com os eventuais comentários que ouço das pessoas dizendo "nossa, mas ela não trabalha...?" Ah, me poupem. Acho que já está mais do que estabelecido que as mulheres que não trabalham fora, trabalham - e muito - dentro. Mas eu só acho que já passou da hora de começarmos a dividir igualmente também o reconhecimento ao trabalho que cada uma das partes está desempenhando.
 
Daí vem meu título. As pessoas perguntam o que meu cunhado faz para ter uma vida tão boa, mas nunca como minha irmã faz a parte dela para que a mágica aconteça.

2 comentários:

  1. Um feliz comentário para uma situação que envolve muitas mulheres.Só para completar: A mão invisível que resolve inúmeras situações e está presente em tudo que dá certo nem sempre é sentida, a não ser por pessoas que já evoluiram nos seus conceitos.Mas, viver feliz em cada situação é o que vale a pena. O resto é resto e deixa prá lá.

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