sábado, 8 de março de 2014

Homem, mulher, essas coisas  - Luis Fernando Verissimo
 
 
O feto começa feminino, depois é que são acrescentados os atributos, digamos assim, masculinos. Por isso nós, homens, temos mamilos e não sabemos o que fazer com eles. Quer dizer: a história biológica do ser humano é exatamente o inverso do seu principal mito de criação, em que a mulher sai de dentro do homem. O mito é não apenas desmentido do fato, e do feto, como uma apropriação masculina de um feito feminino. Ao pôr o primeiro homem para dormir e retirar sua costela e produzir a primeira mulher, Deus fez uma paródia de parto, reivindicando para os homens, no caso Ele e Adão, a primazia do ato de dar vida. E com anestesia, um detalhe que não deve escapar às mulheres, depois condenadas por Ele a padecer de todas as dores da procriação enquanto o homem, responsável por tudo, só era condenado a folhear Caras antigas na sala de espera. Todos os mitos desde os inaugurais, como toda a cultura humana, têm sido masculinos, num contraponto ressentido com a história biológica, verdadeira, feminina, da espécie. Pura inveja.
Freud, que (sendo homem) era suspeito, inventou que a mulher tem inveja do pênis. O homem é que não aguenta a ideia de não estar aparelhado, como a mulher, para se integrar aos grandes dramas reincidentes da Natureza, ovulando de acordo com as fases lunares, gestando, parindo e amamentando filhos e identificando-se com os ciclos de fertilidade da Terra, sentindo as variação de clima e de idade com mais intensidade, e ainda encontrando tempo para ir ao cabeleireiro e dirigir empresas. Enfim, participando. Enquanto ele fica de lado, como um penetra, esperando em vão que a vida o chame para as suas graves verdades e obrigado a inventar uma história paralela de fantasia. Se você concordar que o pênis é o órgão que rege esta história paralela, e que a civilização se explica como uma angústia de potência, o que Freud quis dizer era que a mulher invejava o poder falocrata, ou justamente o que o homem inventou para compensar o fato de não ser mulher. Outro mito usurpador.
 Esta manifestação não é paga, não é encomendada e não, não estou pensando em mudar para o outro sexo. É que sempre fui simpatizante.

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