quinta-feira, 10 de abril de 2014

A cultura da insatisfação

 Se tem uma coisa que me incomoda um monte nesses Estados Unidos é o estímulo constante ao consumismo. O tempo inteiro tem alguém querendo te vender alguma coisa que você não precisa e nem estava interessado. Mas eles tentam empurrar de algum jeito, seja lá o que for. Então é comercial aqui, propaganda ali, panfleto na rua, canal de vendas, telemarketing, loja em todo lugar, cupons de desconto que mandam pra sua casa, compre 1 e leve 2, compre 2 e leve 4, por mais 50 centavos você leva o grande, promoção, sale, 60% off, outlet, Black Friday, compre, compre, compre. Isso tudo por si só já é um tanto desagradável. Talvez porque a gente sabe que não quer a coisa e aí o cérebro que é estimulado é obrigado a ficar dando a resposta o tempo todo: não, não, não, não quero, não preciso, thank you, but no thank you. Cansa, esgota. Mas até que não seria tão mal se ficasse só nisso, no "compre, compre, compre". O problema é que não fica.
 Ah, não fica mesmo. Esse tipo de campanha do compre-compre é para os iniciantes e menos maliciosos. Mas americano quando se propõe a fazer alguma coisa faz bem feito. E num mercado competitivo e saturado como o daqui, as empresas, para garantir suas vendas, acabam apelando para uma estratégia que beira a crueldade. Antes de venderem seus produtos, tentam vender uma ideia: a de que você precisa de tal coisa. E como convencer uma pessoa de que ela precisa de um monte de futilidade? Fazendo-a acreditar que ela precisa ser mais isso, ser menos aquilo outro. Em síntese: que ela, por si só, não é suficiente.
 Aí pegam modelos maravilhosas e ainda alteram a imagem com photoshop, e dá-lhe cabelo, maquiagem, luz, vento artificial, outdoor, comercial, campanhas milionárias para mostrar certos ideiais inatingíveis mas que veja... Se você comprar esse produtinho aqui, só 19 dólares, você também vai ser assim, vai ficar assim, vai ter a vida dos seus sonhos...
 E aí as pessoas vão sendo bombardeadas por esse tipo de mensagem e os que não ficam atentos podem acabar acreditando nas imagens e mensagens... E passam a comprar as mil coisas que estão lhe sendo oferecidas, num ciclo que não tem fim.
 Ah, mas e se a pessoa tem dinheiro, qual o problema em movimentar a economia, né?
 O problema não é gastar dinheiro, fazer compras, voltar cheio de sacolas pra casa. O problema é o sentimento de insatisfação constante que parece existir dentro da maioria das pessoas aqui, gerado por toda essa máquina para estimular o consumismo. 
 Claro, porque pessoas satisfeitas não sentem necessidade de consumir tanto. Mas num país com uma cadeia produtiva gigantesca e altamente dependente do próprio consumo doméstico, é bom ou ruim para a economia que a população esteja infeliz e insatisfei
ta? Exatamente. É uma maravilha.
 E assim o país vai caminhando, com uma economia forte baseada em espíritos fracos. 

Um comentário:

  1. Muito bom o texto! Alguns até perguntam para outros: "o que devo sentir diante deste acontecimento?".

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