segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Masoquista ou humorista?

Um dos cds que mais toca no meu carro é o da Clarice Falcão, que eu adoro. As músicas são gostosas, animadinhas, a voz dela é legal, e as letras... Bom, as letras são super bem escritas, definitivamente interessantes, mas com um quê de... Obssessão? Loucura? Morbidez? Me diga você.
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A primeira música, "Eu esqueci você", pra mim é a melhor de todas, tanto em letra quanto em melodia. Ela canta:

"Só pra você saber
Eu esqueci você
Um mês depois de você
 me esquecer de vez
 e decidir ficar sozinho
Só pra você saber
Eu esqueci você..."

 E você sente a mulher poderosa, decidida, dona de si e com muito mais o que fazer do que ficar atrás do cara que não a quis.

 Mas aí... Vem a segunda música, Macaé, (que até apareceu no filme Confissões de Adolescente), que começa até bem bonitinha:

"Ei, se eu tiver coragem de dizer
que eu meio gosto de você
Você vai fugir a pé?"

E aí você quase não entende quando ela diz:

"Eu queria tanto que você não fugisse de mim
mas se fosse eu, eu fugia..."

Mas sabe aquele negócio que a Oprah diz sobre os malucos, digo, sobre as pessoas? "Se uma pessoa te diz algo sobre ela, acredite." Pois bem... A música segue:

"Ei, se eu falar que foi por amor que eu invadi o seu computador...

Ei, se eu contar como é que eu me senti ao grampear seu celular...

E se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar..."

Ah??

O cd continua com músicas ótimas, com letras ora mais ora menos intensas, mas sempre com a mesma temática. Lá pela música 6, "Talvez" ela se pergunta:

"Talvez
Se eu fosse menos louca
Se eu não fosse quem soca
desesperadamente sem parar
um travesseiro branco
Se eu seguisse em frente
Se eu não fosse propícia
a visualizar gente rolando do barranco
Quem sabe
você não chamasse
a polícia..."

Na primeira vez que eu ouvi o cd, a esta altura eu pensei "polícia? Tá mais caso para psiquiatra."

O cd continua com a 8, "Qualquer negócio":

"Me deixa ser
quem faz o laço
da gravata do mordomo
que te serve o jantar.
(...)
Me deixa ser
a sua estátua de jardim
o seu cabide de casacos
Só não me tira de uma vez da sua casa.

Eu posso ser a empregada
da empregada da empregada
da empregada do seu tio."

Que tal? Um pouco de autoestima, anyone?

Vem a música 10, "O que eu bebi":

"O que eu bebi por você
dá pra encher um navio
(...)
O que eu bebi por você
Me fazia tão mal
que já era normal
acordar no bidê."

E finalmente a mais intensa de todas. A música 12, "Oitavo andar", que merece vir por inteiro:

"Quando eu te vi fechar a porta
Eu pensei em me atrirar pela janela
do oitavo andar
onde a dona Maria mora
Porque ela me adora
E eu sempre posso entrar
Era bem o tempo de você chegar no T
Olhar no espelho o seu cabelo
falar com o seu Zé
E me ver caindo em cima de você
como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer
E aí, só nós dois no chão frio
De conchinha bem no meio-fio
No asfalto riscados de giz
Imagina que cena feliz
Quando os paramédicos chegassem
e os bombeiros retirassem
nossos corpos do Leblon
A gente ia para o necrotério
ficar brincando de sério
deitadinhos no bem bom
Cada um feito um picolé
Com a mesma etiqueta no pé
Na autópsia daria pra ver
Como eu só morri por você
Quando eu te vi fechar a porta
Eu pensei em me atirar pela janela
do oitavo andar
Em ez disso, eu dei meia-volta
e comi uma torta inteira
de amora no jantar."
 
 Pois bem. A letra dessa é um tanto preocupante. Mas só até chegar nas últimas estrofes, onde ela explica não só essa música como todas as outras, acredito. Quando ela diz "eu pensei em me atirar pela janela", mas aí conta o que de fato fez: deu meia-volta e comeu uma torta inteira no jantar. Ou seja, algo absolutamente normal para alguém com dor-de-cotovelo.
 
 Então é assim que eu vejo, ou melhor, ouço esse cd. Como uma sequência de poemas super bem escritos que verbalizam aquele tipo de pensamento que talvez cruze a mente de uma pessoa no desespero por meio segundo antes dela respirar e tomar uma atitude perfeitamente saudável. Acho a Clarice Falcão ao mesmo tempo corajosa e bem humorada, por ter escrito e cantado músicas tão intensas, que ao mesmo tempo são super bonitinhas mas completamente doidas - exatamente como nós mulheres, em tantos momentos.

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