quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

As frágeis - Danuza Leão

Ah, como é boa a vida das mulheres frágeis; elas têm sempre alguém que cuide delas, em todos os sentidos.
As fortes fazem tudo sozinhas e são sempre chamadas nas horas de aperto. Elas aguentam qualquer coisa e são tão fortes que se metem até onde não são chamadas, para ajudar a resolver os problemas dos outros.
É dura a vida das fortes. Elas não são poupadas em nada. Se alguém está com uma doença grave, são as primeiras a saber, se a namorada do sobrinho ficou grávida, são logo avisadas, e quando alguém da família é preso, são imediatamente chamadas para tomar todas as providências - entre elas, pagar ao advogado. Enquanto isso, os pais desses jovens adoráveis estão a beber uma vodka à beira da piscina sem saber de nada - eles não aguentariam um choque desses e precisam de ser poupados, já que são frágeis.
Existe sempre alguém para velar pelas frágeis, seja um parente, um amigo, até um vizinho, que bate à porta, preocupado com o silêncio, para saber se é preciso alguma coisa. Uma mulher frágil é mais frágil que um recém-nascido, e como os homens adoram o papel de protectores - para se sentirem fortes e poderosos - é a união perfeita da fome com a vontade de comer. 
Quando elas ficam doentes, um verdadeiro exército é mobilizado, um leva revistas, o outro um embrulhinho com umas frutas, e se ela não tem empregada, não falta quem vá para a cozinha fazer uma canjinha. Preste atenção: as mulheres frágeis são indestrutíveis. Como são fortes as frágeis.
 Já as fortes, na hora de uma crise de coluna, arrastam-se até ao frigorifico para tomar um copo de água e alimentam-se o fim de semana inteiro com um chocolate, porque ninguém imagina que elas possam precisar de alguma coisa (culpa delas, que preferem morrer de inanição a pedir socorro, para não cair do tipo).
A minha dúvida é: uma mulher frágil nasce frágil ou escolhe essa profissão para se dar bem na vida? Elas sempre encontram um homem para cuidar delas, para as acarinhá-las e cuidar para que nada as atinja, nunca. Enquanto isso, as fortes acabam de trabalhar, e são elas que saem dos supermercados com pacotes de compras sem que ninguém se proponha a dar uma ajuda, mesmo que modesta.
Somos todos estimulados a ser fortes, mas boa vida mesmo levam as frágeis, daí a dúvida: não seria melhor que as crianças fossem ensinadas - sobretudo as meninas - a serem frágeis, porque sempre haverá alguém para resolver os seus problemas? E aliás, qual é a vantagem de se ser forte, além de ouvir dizer que um dia alguém se referiu a ela dizendo "aquela é uma mulher forte". Um grande elogio, é verdade. Mas e daí?
Toda mulher forte tem desejos secretos que não conta nem à seu travesseiro: que alguém - e nem é preciso que seja um homem - faça, um dia, um gesto por ela. Nada de muito importante, apenas um cuidado, dizer que está um pouco pálida, perguntar se se tem alimentado bem, agarrar pelo braço e levar para tomar um suco. Sabe qual é o sonho secreto de uma mulher forte? Ter uma gripe com 38º de febre e poder ficar na cama, sabendo que alguém vai cuidar dela. 
Mas isso é difícil, porque uma mulher forte não adoece, e se isso acontecer, o mais difícil vai ser receber ajuda. Uma mulher forte não deixa que ninguém faça nada por ela, mesmo que precise desesperadamente, e é capaz de se deixar morrer de tristeza, solidão e sofrimento, a pedir socorro, seja a quem for. 
Como são frágeis, as fortes.

Danuza Leão

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