domingo, 1 de fevereiro de 2015

Discordei da Coca-Cola!

 Acabo de ver a nova propaganda da Coca-Cola: "the world is what you make of it. Make it happy." ("O mundo é o que você faz dele. Faça-o feliz.") Lindo? Lindo. Pode ser feito? Em parte. Uma boa filosofia de vida? Se for a única, não.



 Como assim, vai me perguntar o leitor indignado. Ser feliz não deveria ser a Meta por excelência?! Não é tudo o que a gente precisa nesta vida?

 Bom... Sim. Mas o problema é que de uns tempos pra cá a felicidade virou o objetivo e não o que se sente após conquistar o objetivo. Se o seu objetivo é algo concreto como, sei lá, perder 3 quilos, você pode seguir um passo-a-passo e com menos ou mais esforço atingi-lo. Mas a felicidade não é concreta. Já pensou nisso?

 Se perguntássemos a pais de gerações anteriores o que gostariam para seus filhos, talvez diriam: que meu filho seja trabalhador, que tenha sucesso, que seja honesto, que seja digno, que seja o primeiro da família a fazer faculdade, que seja padre, que tenha caráter, que consiga se sustentar e por aí vai. Faça a mesma pergunta hoje e qual é a resposta? Só quero que ele seja feliz.

Putz. Coitados dos filhos de hoje por terem que carregar esse fardo todo nos ombros.

(aliás, coitados de todos nós.)

 Fardo? Sim.  Felicidade é maravilhoso, mas tê-la como objetivo é um fardo sim. Porque a felicidade não é algo que se persegue ou que se constrói, como uma casa ou uma carreira, por exemplo. A felicidade é um sentimento - e sentimento não se força. Ou por acaso você conseguiria se apaixonar perdidamente por aquela pessoa que você acha absolutamente sem graça ou até repulsiva? Exatamente.

 Diferente do que parecem sugerir inúmeros livros do estilo "como ser mais feliz", sentimentos não se fabricam, não vão necessariamnete nascer dentro de você se você seguir o passo a, b e c. Você pode, claro, até se treinar para conseguir ver mais o lado positivo das coisas, para focar a solução em vez do problema, para perceber quantas coisas você tem pelas quais ser grato. Enfim, é possível se treinar para passar a ver o copo metade cheio. Só que para por aí.

 É igual o amor. Você pode estar aberto a se apaixonar, mas é isso. A paixão vai bater quando ela bater e pronto. A felicidade, a mesma coisa. Você pode até saber de coisas que te fazem feliz e ir atrás delas, mas o que se consegue alcançar com ações é isso: as coisas. E não o sentimento que talvez venha a seguir.

 Outra coisa: a felicidade costuma ser efêmera. Queremos ser felizes quando o que geralmente se consegue é estar feliz num momento - e já nem tanto em outro. Só que nessa busca desenfreada pela felicidade (a Meta com m maiúsculo) acabam-se destruindo carreiras, casamentos, famílias, planos... Porque as coisas costumam levar tempo para acontecer... E a felicidade ora vem e ora vai. E se então, por conta de um dia, um mês ou talvez até um ano ruim no trabalho você decidir jogar tudo pra cima, porque afinal não está feliz, terá que começar tudo de novo, do zero, com as mesmas possibilidades e a mesma falta de garantias. Porque nenhum caminho será perfeito e outra coisa que muitos não percebem: você pode até mudar de carreira, de casa, de marido... Mas você continuará sendo a mesma pessoa. E a felicidade será que está na carreira, na casa e no marido ou dentro de você...? Exatamente.

 Não estou advogando em favor da infelicidade, longe de mim. O que estou apontando é que viver com o objetivo único de "ser feliz", custe o que custar, doa a quem doer, pode te levar justamente no caminho para a infelicidade. Porque jogar tudo pra cima costuma custar caro. E o doa a quem doer, espirra na gente também.

 E digo mais: melhor que ser uma pessoa feliz o tempo todo (que sinceramente, às vezes me passa até a impressão de bobo alegre) é ser uma pessoa contente. Porque o contentamento sim, é possível sentir nas horas boas e ruins. É o famoso "faça sua dor dançar" que Marisa Monte colocou tão bem. E o contentamento também é uma forma de felicidade - talvez sua forma mais real.

ps. Essa reflexão foi motivada pela propaganda da Coca-Cola. Mas afinal, o que a Coca-Cola entende de felicidade? Se ela tivesse endereço, será que moraria nos frascos do líquido escuro cheios de açúcar, sódio e sei lá mais o quê de ruim? Pois é. A Coca-Cola não entende nada de felicidade, mas entende muito de vender. E o que vende mais hoje em dia do que uma promessa de felicidade? 
Bravo. Se tem uma coisa que eles fazem bem, não é a bebida
mas sim a propaganda.

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